Era uma vez um menino. Ele
encontrou um dragãozinho na rua e o trouxe para casa.
Nos primeiros dias ele foi
cuidando, sendo carinhoso, e o dragãozinho também o respondia com ternura, até
lambia sua mão!
Com o passar do tempo, volta e
meia o dragãozinho ameaçava mordê-lo. Ele se esquivava, repreendia, fazia um
carinho, e o dragãozinho voltava a ser bonzinho e tranquilo.
Mas os anos foram passando, o dragãozinho
foi crescendo, crescendo... E quanto mais ele crescia, mais comia. O menino
também já crescera um pouco, virara um rapazinho, mas o dragãozinho, esse
parecia não parar de crescer nunca!
A certa altura, o jovem se deu conta que já não tinha mais um bichinho de estimação em casa, mas sim um dragão enorme e difícil de lidar, que volta e meia se descontrolava, soltava fogo pelas ventas e o chamuscava em seus ataques de fúria.
Mas, como o havia criado desde
pequeno, sabia como acalmá-lo quando estava nervoso. E tinha uma tática que
parecia infalível: toda vez que o dragão se enfurecia, ele o alimentava. Isso
ia mantendo-o supostamente sob controle.
Numa dada ocasião, no entanto, o dragão
estava muito irritado com o rapaz porque este havia se ocupado muitas horas no
seu trabalho. O dragão não falava muito bem a sua língua, apenas as palavras
mais básicas e usuais, mas não se conformava que o rapaz conversasse com as pessoas,
queria que seus olhares e palavras fossem só para ele, embora não entendia grandes
coisas do que o rapazinho dizia, nem mesmo se interessava por quaisquer dos
seus assuntos intelectuais.
O rapaz tentou ensinar-lhe um
pouco mais do seu vocabulário, trazê-lo para o seu escritório, mostrar-lhe os
clientes com quem falava e lhe pôr a par
dos assuntos que tratava com eles, mas o dragão desdenhou, disse que tudo
aquilo era muito cansativo, não queria fazer parte daquele mundo. E voltou para casa, onde lambia e lustrava
suas escamas brilhantes o dia todo. Envaidecia-se muito delas. E até tinha razão,
eram mesmo escamas belíssimas!
Só que ter decidido não fazer parte do mundo do rapaz não fez o dragão desistir de requisitar sua atenção em tempo integral. Ele ainda reclamava, dia após dia, que o rapaz só deveria falar com ele, e com ninguém mais!
Um dia, o rapaz conversava animadamente com um cliente da sua empresa, quando foi surpreendido pela presença do dragão entrando no escritório.
Não achou ruim. Pelo contrário! Finalmente, seu dragão havia entendido que o seu trabalho e os seus clientes eram importantes e estava ali, certamente, para tentar interagir também com as outras pessoas.
O dragão pareceu muito bonzinho, como no tempo em que ainda era pequeno, e lambeu sua mão muitas vezes. O cliente achou aquilo tão lindo e amoroso, que até se comoveu!
Mas, tão logo o cliente saiu da empresa, o dragão mostrou suas garras!
Agarrou o rapaz pelo pescoço e o
suspendeu do chão, dizendo-lhe furioso que não queria mais que ele tivesse
aquelas animadas conversas com seus clientes e amigos.
O rapaz tentou argumentar com o dragão,
explicar que no seu trabalho e na sua vida as pessoas lhe dirigiam palavras e
elas eram importantes para ele, mas o dragão estava irredutível: ele nunca mais
poderia ficar ali, falando com os outros, enquanto ele ficasse em casa lustrando
as escamas. E nem viesse dizer que ele deveria participar daquelas conversas
longas e cansativas dele com seus clientes, porque achava os assuntos difíceis
de compreender e não estava disposto.
Foi então que o rapaz lembrou-se que o dragão sempre se acalmava quando ele lhe dava de comer. E assim o fez. Deu-lhe bastante comida. Mas o dragão continuava enfurecido, por mais que comesse.
Em meio àquele ataque de fúria, o dragão pediu ao rapaz que lhe desse um dos seus dedos para ser devorado e deu sua palavra que se fizesse isso ele se acalmaria.
O rapaz achou aquela proposta de acordo absurda! Falou que não, que não lhe daria um dos seus dedos! Imagina! Como ficaria sem um dos dedos? E, no mais, aquilo deveria ser muito doloroso, um suplício ter o dedo dilacerado pelos dentes enormes da fera!
Mas o dragão foi cercando-o, agigantando-se e, por fim, bradou: “Dê-me um dos seus dedos ou eu lhe devorarei inteiro!”
O rapaz arregalou os olhos, incrédulo!
Como podia o dragão – seu amado dragão – que ele levou para casa desde pequeno, alimentou, cuidou, amou todo aquele tempo, agora estar exigindo dele algo tão perverso e absurdo?
Mas o dragão abriu as enormes asas sobre ele, e dos seus olhos e narinas saíam labaredas!
“Dê-me agora um dos seus dedos ou eu lhe devorarei inteiro, sem piedade!” – repetiu o animal, já babando e fungando sobre o seu cuidador.
Foi então que o rapaz, para acalmá-lo, cedeu ao seu desejo e lhe mandou escolher qual dos dedos gostaria de devorar.
Bem, o final da história é um tanto doloroso e assustador. Mas, afinal, o que era um dedo, se o dragão realmente poderia devorá-lo inteiro, não é mesmo?
Viveria sem um dos seus
dedos. E tudo deveria ficar bem dali por
diante – pensou o rapaz.
Mas, a partir daquele dia, o dragão entendeu até onde conseguiria chegar com o poder do seu brado e do seu olhar flamejante.
E você, também tem um dragãozinho de estimação?
PaRáBoLaS
CoTiDiaNaS
Apr 23, 2019
8:10 p.m.